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O novo mapa da ONU é realmente sem distorções?

A ONU mudou o mapa-múndi: afinal, existe um mapa sem distorções?

 

Nos últimos dias, uma notícia ganhou enorme repercussão: a ONU decidiu incentivar uma nova representação do mapa-múndi, privilegiando a projeção Equal Earth em lugar da tradicional projeção de Mercator.

Nas redes sociais, algumas publicações foram além. Fala-se em um mapa que finalmente mostraria o mundo em suas “proporções verdadeiras”, que corrigiria uma visão colonialista do planeta e que acabaria com as distorções que durante séculos teriam feito a África parecer menor do que realmente é.

Mas será que agora temos, finalmente, um mapa-múndi sem distorções?

Não.

E esse é justamente o ponto mais interessante dessa discussão.

A projeção Equal Earth resolve muito bem um tipo específico de distorção: a de área. Mas, como qualquer projeção cartográfica, necessariamente introduz outras deformações.

Não existe projeção cartográfica plana capaz de preservar simultaneamente áreas, formas, ângulos, distâncias e direções em toda a superfície terrestre.

Portanto, antes de transformar Mercator em vilão ou Equal Earth no “mapa verdadeiro do mundo”, precisamos compreender o que realmente mudou — e, principalmente, separar Cartografia, História, educação e interesses políticos que acabaram reunidos nessa discussão.

Este artigo propõe justamente isso: analisar a recente decisão da ONU principalmente do ponto de vista cartográfico, sem ignorar o contexto histórico e político que explica sua enorme repercussão.

 


O que a ONU realmente decidiu?

Em 4 de setembro de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução denominada “Correct the Map: Rebalancing Global Cartographic Representation and Promoting Equitable Representation of the World’s Regions, Particularly Africa”.

Foram 164 votos favoráveis, seis abstenções e apenas um voto contrário, dos Estados Unidos.

A iniciativa foi apresentada pelo Togo em nome do Grupo Africano e procura estimular governos, instituições de ensino, organizações internacionais e empresas de tecnologia a utilizarem representações cartográficas que preservem adequadamente as áreas relativas das massas continentais, com destaque para a projeção Equal Earth.

A resolução não é vinculante e não proíbe a projeção de Mercator, inclusive reconhecendo sua utilidade para determinados propósitos, como a navegação.

Aqui já aparece a primeira simplificação da repercussão.

Não se trata simplesmente de:

“Mercator estava errado e a ONU escolheu agora um mapa correto.”

Cartograficamente, a questão é muito mais interessante.

Comparação entre as projeções Equal Earth e Mercator
Figura 1 – Comparação entre as projeções Equal Earth e Mercator. Sobreposição das mesmas feições geográficas representadas em Equal Earth (EPSG:8857), em laranja, e World Mercator (EPSG:3395), em azul. A figura evidencia o aumento progressivo da distorção de área da projeção de Mercator em direção às altas latitudes, particularmente perceptível na Groenlândia, Canadá, Rússia e Antártida. A Equal Earth, por ser uma projeção equivalente, preserva as proporções relativas das áreas. Fonte: elaboração própria (GeoOne, 2026).

Primeiro: todo mapa-múndi plano distorce alguma coisa

Esse conceito precisa estar no centro da discussão.

A Terra possui uma superfície curva. Quando tentamos representá-la em um plano, precisamos realizar uma transformação matemática.

E essa transformação inevitavelmente produz deformações.

Uma analogia simples é tentar retirar a casca de uma laranja e colocá-la completamente plana sobre uma mesa. Para conseguir isso, será necessário rasgar, comprimir ou esticar determinadas partes.

Com a Terra acontece algo semelhante.

Não existe uma projeção que preserve simultaneamente em todo o planeta:

  • áreas;
  • distâncias;
  • ângulos;
  • direções;
  • formas.

Cada projeção prioriza determinadas propriedades em detrimento de outras.

Portanto, dizer que Equal Earth é um mapa “sem distorções” é cartograficamente incorreto.

Ela preserva áreas.

Isso não significa preservar tudo.

projecoes-cartograficas-superficie-curva-plano-laranja-geoone
Figura 2 – A impossibilidade de transformar uma superfície curva em um plano sem introduzir deformações. Assim como a casca de uma laranja precisa ser cortada, esticada ou deformada para ser disposta sobre uma superfície plana, a representação da Terra em um mapa exige transformações que inevitavelmente alteram propriedades como áreas, formas, ângulos ou distâncias. Fonte: elaboração GeoOne (2026).

 


Mercator nunca foi uma projeção “errada”

Gerardus Mercator apresentou sua famosa projeção em 1569, em um contexto de expansão da navegação oceânica europeia.

Seu grande mérito é matemático.

Mercator é uma projeção conforme.

Isso significa que preserva localmente ângulos e, consequentemente, pequenas formas. Além disso, uma linha de rumo constante — a chamada loxodromia — aparece como uma reta.

Imagine um navegador mantendo determinado rumo pela bússola. Em uma carta de Mercator, esse rumo pode ser representado por uma linha reta.

Para navegação, isso foi revolucionário.

Portanto:

Mercator não criou uma projeção ruim para representar o mundo. Criou uma excelente projeção para uma finalidade específica.

O problema aparece quando utilizamos essa projeção para outra finalidade: comparar visualmente o tamanho dos países e continentes.


Afinal, Mercator diminui a África?

Essa frase precisa ser tratada com cuidado.

Tecnicamente, é mais correto dizer que Mercator amplia progressivamente as áreas à medida que aumenta a latitude.

Como grande parte da África está situada em baixas latitudes e é atravessada pelo Equador, sua ampliação é relativamente pequena.

Já Groenlândia, Canadá, Rússia e norte da Europa sofrem ampliações enormes.

O resultado visual é que a África parece pequena em relação às regiões localizadas nas altas latitudes.

O exemplo clássico é a comparação com a Groenlândia.

Em muitos mapas de Mercator, Groenlândia e África parecem possuir dimensões relativamente próximas.

Na realidade, a África é aproximadamente 14 vezes maior que a Groenlândia.

Portanto, existe sim um problema cartográfico objetivo quando Mercator é utilizada para comparar áreas.

Isso independe de ideologia.

É consequência matemática da projeção.

groelandia x africa
Figura 3 – Comparação entre as dimensões da África e da Groenlândia. Na projeção de Mercator, a Groenlândia sofre forte ampliação devido à sua localização em altas latitudes, podendo aparentar dimensão semelhante à África. Quando comparadas em uma representação equivalente, evidencia-se a diferença real entre suas áreas: a África possui aproximadamente 14 vezes a área da Groenlândia. Fonte: elaboração GeoOne (2026).

 


Então Equal Earth resolveu o problema?

Resolveu esse problema.

Não resolveu todos os problemas inerentes às projeções.

A Equal Earth foi desenvolvida em 2018 pelos cartógrafos Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny.

É uma projeção pseudocilíndrica equivalente (equal-area).

Sua principal propriedade é preservar as proporções entre áreas.

Se determinado território possui, na superfície terrestre, o dobro da área de outro, essa relação de áreas permanece representada corretamente no mapa.

Os próprios autores explicam que a projeção foi inspirada visualmente na Robinson, mas possui justamente a propriedade que Robinson não possui: equivalência de áreas.

Mas Equal Earth continua deformando:

formas, ângulos e distâncias.

Essa frase merece destaque:

Preservar áreas não significa eliminar distorções. Significa escolher a área como propriedade prioritária.

Essa é uma diferença enorme.


Equal Earth ou Robinson: por que escolher a primeira?

Essa é uma pergunta particularmente interessante porque as duas projeções são visualmente semelhantes.

E isso não é coincidência.

A própria Equal Earth foi desenvolvida inspirada na aparência da projeção Robinson.

A Robinson é uma projeção de compromisso.

Ela não procura preservar rigorosamente área, ângulo ou distância. Procura distribuir as deformações de maneira visualmente agradável, produzindo um mapa-múndi equilibrado.

A Equal Earth mantém parte dessa aparência agradável, mas acrescenta uma propriedade matemática objetiva:

preserva áreas.

Por isso, quando o objetivo é comparar continentes, população, cobertura vegetal, agricultura, desmatamento, recursos naturais ou outras variáveis associadas territorialmente à superfície, existe um forte argumento técnico para preferir uma projeção equivalente.

mercator-robinson-equal-area-tissot
Figura 4 – Comparação das projeções Mercator, Robinson e Equal Earth por meio das indicatrizes de Tissot, evidenciando suas diferentes distorções de área e forma. Fonte: elaboração GeoOne (2026).
ProjeçãoPrincipal característicaPrincipal limitação
MercatorConforme; preserva ângulos e favorece navegaçãoGrande distorção de áreas nas altas latitudes
RobinsonCompromisso visual entre diferentes deformaçõesNão preserva rigorosamente áreas nem ângulos
Equal EarthPreserva áreas e possui aparência semelhante à RobinsonDeforma formas, ângulos e distâncias

Idealmente, gerar os três mapas com a mesma simbologia e o mesmo meridiano central.


Mas então por que essa discussão virou uma questão política?

Porque a iniciativa africana não apresenta a mudança apenas como uma escolha matemática.

Os defensores da campanha argumentam que séculos de utilização de representações baseadas em Mercator contribuíram para uma percepção visual desproporcional do planeta, na qual países das altas latitudes — muitos deles potências europeias ou do hemisfério norte — aparecem exageradamente grandes em relação à África e outras regiões tropicais.

Na discussão da ONU aparecem expressões relacionadas a colonialismo, representação histórica, reparação e “justiça cognitiva”.

Portanto, existem duas questões que precisam ser separadas.

A primeira é matemática:

Mercator distorce áreas?

Sim.

Equal Earth preserva áreas?

Sim.

A segunda é histórica e política:

essa distorção contribuiu para diminuir simbolicamente a importância da África e perpetuar uma visão colonial do planeta?

Essa já não é uma questão que possa ser respondida apenas pelas equações da Cartografia. Trata-se de uma interpretação histórica, cultural e política.

Confundir essas duas dimensões empobrece a discussão.


E por que os Estados Unidos votaram contra?

A resolução foi aprovada por 164 votos a favor, 6 abstenções e apenas 1 voto contrário: o dos Estados Unidos.

A posição americana, porém, não foi uma defesa técnica da projeção de Mercator nem uma contestação da matemática da Equal Earth. A objeção concentrou-se no enquadramento político da iniciativa, associado por seus defensores a temas como colonialismo, reparações históricas e “justiça cognitiva”.

Há, portanto, duas discussões diferentes: cartograficamente, a Equal Earth preserva as proporções entre as áreas, enquanto Mercator não; politicamente, seus defensores atribuem à predominância histórica da Mercator um significado relacionado ao eurocentrismo e ao legado colonial.

Foi principalmente contra essa segunda interpretação que os Estados Unidos se posicionaram, classificando a iniciativa como parte de uma “agenda ideológica”.

Assim, afirmar que “os Estados Unidos votaram contra porque não querem aparecer menores no mapa” é uma simplificação sem respaldo na justificativa oficial. A controvérsia não estava propriamente na matemática da projeção, mas no significado histórico e político atribuído à mudança.


Afinal, quem decidiu que a África deveria estar no centro?

Aqui aparece outra confusão frequente.

Projeção cartográfica e centralização do mapa são coisas diferentes.

Equal Earth não obriga a África a ficar no centro.

Seu meridiano central pode ser alterado matematicamente. A própria implementação da projeção no PROJ admite a definição da longitude de origem.

Poderíamos produzir um mapa Equal Earth centrado:

  • na África;
  • na Europa;
  • nas Américas;
  • no Brasil;
  • na Ásia;
  • no Pacífico.

Não existe um “centro natural” de um planisfério.

A escolha do centro é uma decisão cartográfica e pode, evidentemente, adquirir significado cultural ou político.

equal earth
Figura 5 – Projeção Equal Earth com diferentes meridianos centrais: Américas (EPSG:8858), Greenwich (EPSG:8857) e Ásia-Pacífico (EPSG:8859). A alteração do meridiano central modifica a organização visual e a centralidade do mapa, sem alterar sua propriedade equivalente de preservação das áreas. Fonte: elaboração GeoOne (2026).

E quem decidiu que Greenwich é o zero (origem)?

Existe uma diferença fundamental entre latitude e longitude.

O Equador possui uma origem geométrica natural, determinada pelo eixo de rotação terrestre.

A longitude zero não.

Em princípio, poderíamos estabelecer o meridiano de origem em inúmeras posições.

Durante séculos diferentes países utilizaram diferentes meridianos de referência.

Em 1884, a Conferência Internacional do Meridiano, realizada em Washington, estabeleceu Greenwich como referência internacional.

A escolha não ocorreu porque Greenwich fosse o “centro do mundo”.

Havia uma forte influência histórica e geopolítica britânica, mas também uma enorme razão prática.

Naquele momento, aproximadamente 72% da tonelagem da navegação mundial já utilizava Greenwich como referência.

Adotar Greenwich reduzia enormemente o custo de uma padronização internacional.

Portanto, Greenwich é uma convenção histórica internacional, não uma propriedade natural do planeta.


E quem decidiu que o Norte fica para cima?

A resposta também é simples:

não existe “para cima” no espaço.

Colocar o Norte na parte superior tornou-se uma convenção cartográfica consolidada historicamente.

Um mapa com o Sul para cima não é, por esse motivo, matematicamente errado.

Mas aqui surge uma questão diferente:

o que é cartograficamente possível nem sempre é didaticamente adequado sem contextualização.

E temos um ótimo exemplo recente no Brasil.


O Brasil no centro — e o mapa invertido do IBGE

Nos últimos anos, o IBGE também explorou representações cartográficas não convencionais.

Em 2024, foi divulgado um mapa-múndi com o Brasil no centro da projeção.

Posteriormente, durante a COP30, em novembro de 2025, o IBGE apresentou o “Mapa-múndi invertido – Pará no centro do mundo”, colocando o Pará no centro e invertendo a orientação convencional.

Segundo o próprio IBGE, a proposta era uma releitura cartográfica, simbolizando a relevância do Pará como sede da COP30 e sua centralidade na agenda climática global.

Figura 6: Mapa do IBGE com o Pará no centro e orientação Norte-Sul invertida.

 


O mapa invertido está errado?

Cartograficamente, não necessariamente.

Mas essa não deveria ser a única pergunta.

Em uma exposição, em uma aula de Cartografia crítica ou após a apresentação dos conceitos fundamentais, um mapa invertido pode ser um excelente recurso didático.

Ele provoca perguntas importantes:

Por que o Norte está para cima?

Por que Greenwich é longitude zero?

Por que determinados mapas colocam a Europa no centro?

Existe realmente um centro do mundo?

Essas são excelentes questões.

Entretanto, existe uma preocupação educacional legítima quando representações deliberadamente não convencionais são apresentadas a estudantes iniciantes sem que as convenções fundamentais tenham sido previamente compreendidas.

Antes de desconstruir uma convenção, é importante compreender a convenção.

O estudante precisa dominar conceitos como:

  • Equador;
  • paralelos;
  • meridianos;
  • latitude;
  • longitude;
  • hemisférios;
  • orientação;
  • coordenadas geográficas;
  • meridiano de Greenwich.

Depois disso, mostrar que algumas dessas referências são convenções pode produzir uma excelente aula de Cartografia.

Sem essa contextualização, entretanto, uma provocação cartográfica pode acabar produzindo confusão conceitual, especialmente em um cenário educacional no qual muitos estudantes já apresentam dificuldades de orientação espacial e leitura cartográfica.

A solução não é proibir mapas diferentes.

É ensinar o aluno a compreendê-los.


Mas a ONU usava oficialmente Mercator?

Aqui encontramos talvez uma das maiores simplificações da repercussão.

A resposta é:

não existe uma única projeção oficial da ONU para todos os seus mapas.

A própria divisão geoespacial das Nações Unidas informa que o Secretariado não possui uma projeção cartográfica prescrita.

Mais interessante ainda: segundo a própria ONU, a maioria de seus mapas-múndi utiliza tradicionalmente projeções como Robinson, Winkel III e Eckert IV, justamente por oferecerem diferentes compromissos entre distorções globais.

Portanto, dizer simplesmente que:

“A ONU abandonou seu antigo mapa Mercator e adotou Equal Earth”

é uma simplificação inadequada.

A resolução de 2026 procura incentivar internacionalmente o uso de projeções equivalentes, especialmente Equal Earth, em substituição ao uso de representações que distorcem fortemente as áreas.

Isso é diferente de substituir um suposto e único “mapa oficial da ONU”.

Aliás, a própria ONU disponibilizava mapas-múndi institucionais antes da resolução e mantém um setor específico, o UN Geospatial, responsável pela produção cartográfica da organização.


E o símbolo da ONU? Qual projeção ele utiliza?

Aqui aparece uma curiosidade cartográfica fantástica.

O famoso símbolo das Nações Unidas não utiliza Mercator, Robinson nem Equal Earth.

Utiliza uma projeção azimutal equidistante centrada no Polo Norte.

A própria ONU descreve oficialmente seu emblema dessa maneira.

O desenho original surgiu em 1945 e o emblema oficial foi aprovado em 1946.

Observe como essa escolha é simbolicamente interessante.

Em vez de utilizar um planisfério tradicional colocando determinada região no centro, o mundo é observado a partir do Polo Norte.

Continentes aparecem distribuídos ao redor do centro da projeção.

Mais uma vez:

a escolha de uma projeção também pode comunicar uma mensagem.

ONU projeção azimutal
Figura 7 – Símbolo oficial da ONU e sua base cartográfica. O emblema utiliza uma projeção azimutal equidistante centrada no Polo Norte, com meridianos radiais e paralelos concêntricos. Essa projeção preserva distâncias a partir do ponto central, mas apresenta distorções crescentes à medida que dele se afasta. Fonte: ONU; elaboração gráfica GeoOne (2026).

 


Então essa mudança é técnica ou é “lacração”?

Talvez essa seja a pergunta que esteja por trás de grande parte da discussão nas redes sociais.

Mas responder apenas “sim” ou “não” seria perder justamente o aspecto mais interessante do problema.

Existe uma justificativa técnica real.

Mercator é inadequada quando o objetivo principal é comparar visualmente áreas continentais.

Equal Earth preserva essas áreas.

Isso é Cartografia.

Mas existe também uma agenda simbólica e política declarada.

A iniciativa foi associada pelos próprios defensores a colonialismo, representação da África, reparação histórica e justiça cognitiva.

Isso é política, História e interpretação cultural.

Uma coisa não anula necessariamente a outra.

Da mesma maneira, reconhecer a vantagem matemática da Equal Earth para representar áreas não obriga ninguém a aceitar automaticamente todas as interpretações políticas construídas em torno dela.

E reconhecer que existe uma agenda política envolvida não torna falsa a propriedade matemática da projeção.

Talvez o maior erro dessa discussão seja tentar transformar uma questão complexa em apenas duas alternativas:

“Mercator é colonialista.”

ou

“Equal Earth é apenas ideologia.”

Nenhuma das duas frases explica adequadamente o problema.


Todo mapa escolhe o que quer preservar — e também o que quer comunicar

Essa talvez seja a principal lição dessa polêmica.

Um mapa não é uma fotografia reduzida do planeta.

É um modelo da realidade.

Ao produzir um mapa, fazemos escolhas.

Escolhemos:

  • projeção;
  • escala;
  • orientação;
  • meridiano central;
  • simbologia;
  • cores;
  • nomes;
  • limites;
  • informações que aparecem;
  • informações que não aparecem.

Algumas dessas escolhas são estritamente técnicas.

Outras são convencionais.

Outras podem ser políticas.

E frequentemente elas coexistem no mesmo mapa.


Afinal, qual é o melhor mapa-múndi?

Ele simplesmente não existe.

Existe o mapa mais adequado para determinada finalidade.

Quer preservar ângulos e trabalhar com determinadas propriedades úteis à navegação?

Mercator continua extremamente importante.

Quer um mapa-múndi visualmente equilibrado?

Uma projeção de compromisso como Robinson ou Winkel Tripel pode ser adequada.

Quer comparar corretamente áreas territoriais?

Equal Earth, Eckert IV e outras projeções equivalentes possuem vantagens claras.

Quer analisar distâncias ou direções a partir de determinado ponto?

Uma projeção azimutal pode ser a escolha apropriada.

Portanto, a pergunta tecnicamente correta não é:

“Qual é o mapa verdadeiro do mundo?”

A pergunta deveria ser:

Qual projeção é mais adequada para aquilo que eu quero representar?


Talvez devêssemos ensinar vários mapas, e não escolher apenas um

Do ponto de vista educacional, essa talvez seja a consequência mais interessante de toda essa discussão.

Em vez de simplesmente retirar Mercator da parede da escola e colocar Equal Earth no lugar, poderíamos utilizar a oportunidade para ensinar por que os dois mapas são diferentes.

Mostrar Mercator.

Mostrar Robinson.

Mostrar Equal Earth.

Mostrar uma projeção azimutal.

Mudar o meridiano central.

Colocar o Brasil no centro.

Colocar o Pacífico no centro.

Virar o mapa de cabeça para baixo.

E então perguntar ao aluno:

O que mudou?

O tamanho real dos países mudou?

Não.

Mudou a maneira como escolhemos representar uma superfície tridimensional em duas dimensões.

Esse exercício provavelmente ensina muito mais Cartografia do que apresentar qualquer projeção isoladamente como “o mapa correto”.

mapa muni esquema
Figura 9 – Comparação das principais propriedades e distorções das projeções Mercator, Robinson, Equal Earth e Azimutal Equidistante, demonstrando que não existe mapa-múndi plano sem distorções. Fonte: elaboração GeoOne (2026).

O mapa também é uma mensagem

A decisão recente da ONU possui fundamento cartográfico.

Para comparações de área, Equal Earth oferece uma propriedade que Mercator simplesmente não oferece.

Ao mesmo tempo, a escolha está inserida em uma discussão explicitamente histórica e política sobre a representação da África.

Os Estados Unidos, único país a votar contra, não contestaram fundamentalmente a matemática da Equal Earth. Contestaram principalmente o enquadramento ideológico atribuído à iniciativa. Outros países levantaram preocupações relacionadas à representação de fronteiras e territórios disputados.

Isso demonstra perfeitamente por que Cartografia e política algumas vezes se encontram.

Mas existe uma distinção que não deveríamos perder.

A matemática pode demonstrar quais propriedades uma projeção preserva.

Ela não determina qual significado político devemos atribuir ao mapa.

Essa interpretação pertence à sociedade.

Talvez a grande contribuição dessa polêmica seja justamente lembrar algo básico para quem trabalha com Geotecnologias:

Todo mapa é uma representação da realidade. Não é a própria realidade.

Por isso, antes de discutir se África, Europa, Estados Unidos ou Brasil deveriam ocupar o centro do mapa, existe uma pergunta ainda mais importante:

Centro de qual mapa e para qual finalidade?

Porque o planeta não possui um “lado de cima”.

Greenwich não é o centro natural da Terra.

A África não precisa ocupar o centro.

O Brasil também não.

E nenhuma projeção plana consegue representar perfeitamente toda a superfície terrestre.

A Cartografia começa justamente quando entendemos essas limitações — e aprendemos a escolher conscientemente o que queremos preservar, o que estamos dispostos a distorcer e o que pretendemos comunicar.


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Ao longo deste artigo vimos que não existe uma única projeção cartográfica adequada para todas as finalidades. Mercator, Equal Earth, Robinson e outras projeções fazem escolhas diferentes sobre quais propriedades preservar e quais distorções aceitar.

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