Cintilação Ionosférica

Cintilação Ionosférica

Cintilação Ionosférica: O Fenômeno que Prejudica Levantamentos GNSS, RTK e Aerolevantamentos com Drones

 

A cada ciclo solar, os profissionais que dependem do posicionamento GNSS percebem um aumento repentino de falhas, instabilidade na solução RTK e dificuldades no posicionamento preciso. Em 2024 e 2025, com o avanço do Ciclo Solar, a cintilação ionosférica voltou a ser um dos principais vilões de levantamentos geodésicos, base para a aerofotogrametria e georreferenciamento.

Mas o que exatamente é a cintilação? Como ela afeta RTK, PPK e o pós-processamento? Existe algum sistema de alerta para prever esses fenômenos? E o mais importante: o que o profissional pode fazer para reduzir os impactos?

Este artigo busca responder essas perguntas de forma didática e prática, apresentando ao final, dicas importantes para quem trabalha com aerolevantamento com drones.

 

1. O que é Cintilação Ionosférica?

A cintilação ionosférica é um fenômeno físico causado por variações rápidas e irregulares na densidade de elétrons na ionosfera, uma camada da atmosfera que se estende entre 60 e 1000 km de altitude. Embora a ionosfera esteja nessa espessa região, a cintilação relevante para o GNSS ocorre principalmente na região entre 250–400 km, onde surgem as bolhas equatoriais.

Essas irregularidades fazem com que os sinais de satélites GNSS:

  • sofram mudanças bruscas de fase
  • tenham a amplitude enfraquecida
  • percam estabilidade
  • ou até deixem de ser rastreados temporariamente

O resultado são erros no posicionamento e, em casos mais severos, a perda completa da solução.

INPE-TEC

Essa variação de elétrons é medida em TEC (Total Electron Content). Valores elevados ou com grande taxa de variação costumam indicar maior risco de cintilação.

Observação: a cintilação está mais associada a irregularidades e gradientes no TEC do que ao valor absoluto. TEC alto pode aumentar o risco, mas não é, por si só, indicativo de cintilação.

2. Por que a Cintilação Aumenta? O Papel do Clima Espacial e do Sol

O TEC varia naturalmente ao longo do dia e acompanha ciclos:

  • Ciclo solar (11 anos) → períodos de maior atividade solar aumentam o TEC
  • Estação do anoequinócios tendem a intensificar irregularidades
  • Localização geográfica → regiões próximas ao equador (como o Brasil) sofrem mais
  • Horário do dia → fins de tarde e início da noite são críticos

Durante picos de atividade solar, tempestades geomagnéticas e ejeções de massa coronal (explosões solares), a ionosfera fica ainda mais instável, aumentando a probabilidade de cintilação severa.

2.1. Modelos de TEC e arquivos IONEX

O TEC representa a quantidade total de elétrons ao longo do caminho do sinal. Quanto maior o TEC — ou quanto maior sua taxa de variação — maior o risco de cintilação.

Modelos de TEC e arquivos IONEX são fornecidos por instituições como:

O TEC ajuda a entender o “estado” da ionosfera, mas a cintilação está mais relacionada às irregularidades e gradientes nesse conteúdo eletrônico do que ao valor absoluto.

3. Como a Cintilação Afeta o Posicionamento GNSS?

A cintilação prejudica três pilares do posicionamento preciso:

3.1. Rastreabilidade dos sinais

O receptor perde temporariamente a capacidade de “seguir” o satélite:

  • Perda de lock
  • “pulos” de fase (cycle slips)
  • redução do número de satélites utilizáveis

3.2. Acurácia das observações de fase

A fase da onda portadora — fundamental para RTK, PPK e estático — torna-se ruidosa, dificultando a fixação de ambiguidade.

3.3. Disponibilidade da solução

Em eventos moderados a severos:

  • RTK passa de FIX para FLOAT repetidamente
  • soluções PPP demoram mais para convergir
  • drones podem registrar observações degradadas no RINEX
  • GCPs podem apresentar diferenças acima do esperado

No Brasil, o tema da cintilação ionosférica e seus efeitos sobre GNSS tem sido estudado por grupos científicos como o GEGE (Grupo de Estudo em Geodésia Espacial) da UNESP – Universidade Estadual Paulista, campus de Presidente Prudente, que realiza pesquisas sobre posicionamento GNSS, monitoramento ionosférico e redes de estações GNSS.

4. RTK, PPK e Estático: Quem Sofre Mais?

A cintilação NÃO afeta todas as técnicas da mesma forma.

4.1. RTK (mais vulnerável)

O RTK exige fixação instantânea das ambiguidades e depende muito da qualidade da fase.

Na cintilação:

  • FIX cai constantemente
  • ambiguidade não fixa
  • correções da base nem sempre representam bem a ionosfera entre base e rover
  • cada cycle slip exige reinicialização

O resultado: em eventos moderados a severos, o RTK pode tornar-se instável ou intermitente.

4.2. PPK (menos vulnerável – mas não imune)

No PPK, os dados são processados depois do levantamento. Isso permite:

  • analisar a trajetória com calma e identificar erros e perda de rastreio
  • detectar e reparar cycle slips com algoritmos mais robustos
  • usar filtros temporais que aproveitam melhor a continuidade do sinal
  • testar diferentes estratégias de processamento e reprocessar quantas vezes for necessário

Modelos ionosféricos e produtos globais podem ajudar, mas não são o principal fator: o que realmente aumenta a robustez do PPK é poder “voltar atrás” e reconstruir a solução ao longo do tempo. Mesmo assim, durante eventos severos de cintilação, o PPK pode ter dificuldade em fixar ambiguidades ou manter uma solução estável.

4.3. Estático / PPP (mais resiliente)

Nas técnicas estáticas e no PPP, o receptor permanece observando por períodos longos. Isso permite que os filtros matemáticos acumulem informação ao longo do tempo e “suavizem” os efeitos momentâneos da ionosfera.

Por isso, em condições normais:

  • a convergência tende a ser mais estável
  • ambiguidades podem ser resolvidas com mais segurança
  • é possível reprocessar os dados com diferentes estratégias e produtos auxiliares

Quando disponíveis, modelos e produtos ionosféricos avançados ajudam, mas não eliminam totalmente o efeito da cintilação.

👉 Importante: durante eventos severos, o PPP pode sofrer bastante. A convergência pode demorar muito, oscilar ou até não fixar, principalmente em regiões equatoriais.

EM RESUMO:

TécnicaImpacto da cintilação
RTKMuito alto — quedas de FIX e perdas frequentes de rastreio
PPKMédio — melhora com reprocessamento, mas pode perder fixação
Estático / PPPBaixo a médio, porém pode degradar bastante em eventos severos

 

5. Existem Sistemas de Alerta de Cintilação? Sim!

A boa notícia é que já existem sistemas nacionais e internacionais que monitoram e preveem atividade ionosférica, fornecendo tendência e risco de cintilação ionosférica.

5.1. Brasil – INPE / EMBRACE

O INPE é a principal referência nacional, oferecendo monitoramento ionosférico em tempo real através do

5.2. Estados Unidos – NOAA Space Weather Prediction Center

Alertas de tempestades geomagnéticas:

5.3. Europa – ESA Space Weather Service

Monitoramento europeu e análises globais:

5.4. Global – TerraStar

TerraStar é também um serviço comercial de correção precisa (da Hexagon) que possibilita previsão para 7 dias e próximos 72h através do Mapa de previsão de TEC e cintilação.

Mapa de previsão de TEC e cintilação

 

6. Como Profissionais de GNSS e Drones Podem se Proteger? (Guia Prático)

A seguir, um checklist definitivo para profissionais que trabalham com aerolevantamento com drone.

6.1. Antes do levantamento

  • Verifique mapas de TEC e cintilação do Trimble GNSS Planning ou TerraStar
  • Evite horários críticos (final da tarde / início da noite)
  • Prefira usa constelações multifrequência (L1/L2/L5)
  • Se possível, reduza distância base–rover no RTK
  • Se o risco for moderado a alto: priorize PPK ou pós-processamento

6.2. Durante o levantamento

  • Aumente o tempo de coleta nos pontos
  • No drone, prefira voos mais curtos e com maior redundância
  • Garanta céu o mais aberto possível (obstrução agrava o problema)
  • Monitore DOP, S4, ROTI, rejeições e cycle slips

6.3. Após o levantamento

  • Reprocessar sempre que houver perda de FIX ou instabilidade
  • Use modelos globais e técnicas de filtragem no PPK/estático
  • Verifique compatibilidade e consistência dos GCPs
  • Compare logs para identificar sinais degradados

Conclusão

A cintilação ionosférica é um fenômeno invisível, mas capaz de comprometer seriamente levantamentos GNSS, especialmente em regiões equatoriais como o Brasil. Com o aumento da atividade solar no Ciclo Solar 25, tornou-se indispensável que profissionais de topografia, agrimensura, geoprocessamento e aerolevantamento compreendam seus efeitos, saibam interpretar mapas de TEC e usem métodos mais robustos quando o RTK se torna instável.

Ferramentas de monitoramento como o GNSS Planning, TerraStar, INPE/EMBRACE, NASA CDDIS e ESA ajudam a identificar períodos de maior risco e a planejar melhor as operações de campo. Além disso, técnicas como o PPK, o pós-processamento estático e o uso de modelos ionosféricos são estratégias para tentar recuperar acurácia mesmo em condições adversas.

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