O que é uma RN? Entenda a origem das altitudes no Brasil, o Datum de Imbituba e o futuro da altimetria
Quando observamos uma placa metálica fixada em uma ponte, em um prédio público ou em um marco de concreto à beira de uma rodovia, muitas vezes encontramos a inscrição “RN”.
Para a maioria das pessoas, trata-se apenas de mais uma sigla técnica. Mas para topógrafos, engenheiros, geógrafos e profissionais que trabalham com geotecnologias, aquelas duas letras representam um dos pilares da infraestrutura geodésica brasileira.
RN significa Referência de Nível.
Quando falamos de várias delas, utilizamos a sigla RRNN = Referências de Nível.

Esses pontos possuem altitude conhecida e servem como referência para obras de engenharia, levantamentos topográficos, monitoramento de estruturas e inúmeras outras aplicações que dependem de altitudes confiáveis.
Mas para entender o que é uma RN, precisamos antes responder uma pergunta aparentemente simples:
Como sabemos qual é a altitude de um lugar?
Altitude em relação a quê?
Imagine que alguém diga que um determinado ponto está a 350 metros de altitude.
A pergunta natural seria:
350 metros acima de quê?
Toda altitude precisa estar associada a uma superfície de referência. Essa superfície recebe o nome de Datum Vertical.
De forma simplificada, o Datum Vertical é o sistema que define onde está o “zero” das altitudes.
Historicamente, essa referência foi associada ao nível médio do mar. A ideia parece simples: observar o comportamento do oceano durante vários anos, calcular uma média e utilizar esse valor como origem das altitudes.
Na prática, entretanto, o problema é muito mais complexo.
O nível do mar varia continuamente devido às marés, correntes oceânicas, pressão atmosférica, ventos e diversos outros fenômenos físicos. Por isso, determinar um datum vertical exige anos de observações e um grande esforço científico.
Como nasceu o Datum Vertical Brasileiro?
A história começa ainda na primeira metade do século XX.
As primeiras altitudes utilizadas no Brasil estavam vinculadas ao chamado Datum de Torres, definido a partir de observações do nível do mar realizadas entre 1919 e 1920 na cidade de Torres, no Rio Grande do Sul. Essa referência era considerada provisória e servia apenas para viabilizar os primeiros trabalhos de nivelamento do país.
A definição oficial ocorreu alguns anos depois.
A partir de 1949, uma rede de estações maregráficas foi implantada ao longo da costa brasileira pelo Inter-American Geodetic Survey (IAGS). Entre essas estações, uma delas estava localizada no Porto de Imbituba, em Santa Catarina. Os registros obtidos nesse local foram utilizados para definir o Datum Vertical Brasileiro.
Em 1959, o IBGE adotou oficialmente o chamado Datum de Imbituba, calculado a partir da média dos níveis médios anuais do mar observados entre 1949 e 1957.
Foi a partir desse momento que nasceu a referência altimétrica utilizada em praticamente todo o território nacional.
Por isso, não é exagero dizer que o Porto de Imbituba guarda o “marco zero” histórico das altitudes brasileiras.
Como eram feitas essas medições?
Muito antes dos sensores digitais e dos sistemas automáticos de monitoramento, a observação do nível do mar era realizada por equipamentos mecânicos conhecidos como marégrafos analógicos.
O sistema era surpreendentemente engenhoso: Dentro de um poço de tranquilização conectado ao mar existia um flutuador ligado a um conjunto de pesos e contrapesos. Esse mecanismo movimentava uma pena registradora que desenhava continuamente as oscilações da maré sobre um papel milimetrado instalado em um tambor rotativo.

À medida que a maré subia ou descia, a pena acompanhava o movimento e registrava um gráfico contínuo do comportamento do mar.
Durante décadas, esses registros foram a principal fonte de informação para a definição e manutenção dos referenciais altimétricos.
Hoje a realidade é completamente diferente. Sensores radar, sensores de pressão, estações meteorológicas integradas e sistemas de telemetria enviam dados praticamente em tempo real para pesquisadores e instituições responsáveis pelo monitoramento do nível do mar. Confira no vídeo abaixo:
O que as RRNN têm a ver com tudo isso?
Uma vez definido o Datum Vertical, era necessário levar essa referência para o interior do país.
Foi exatamente para isso que surgiu a Rede Altimétrica do Sistema Geodésico Brasileiro.

A Rede Altimétrica de Alta Precisão (RAAP) começou a ser implantada em 1945 e atualmente é composta por dezenas de milhares de Referências de Nível distribuídas por todo o território nacional.
Essas referências foram determinadas principalmente por nivelamento geométrico de alta precisão, utilizando níveis topográficos e miras de Invar.
Em termos simples, cada RN funciona como um degrau de uma gigantesca escada altimétrica que conecta o litoral brasileiro às regiões mais distantes do interior.
Quando um profissional executa um nivelamento a partir de uma RN, ele está transferindo para o seu projeto a mesma referência de altitude que, historicamente, teve origem nas observações maregráficas de Imbituba.
Então existe apenas um Datum Vertical no Brasil?
Essa é uma das curiosidades mais interessantes da Geodésia brasileira.
A resposta é: não.
Embora o Datum de Imbituba seja a referência histórica predominante, existe também o Datum Vertical de Santana, localizado no estado do Amapá.
E aqui surge um detalhe fascinante.
Os dois sistemas não estão conectados por nivelamento geométrico.
A razão é uma enorme barreira natural: a Foz do Rio Amazonas.
A largura da região, associada às dificuldades logísticas e ambientais, impediu a conexão física das redes altimétricas do Norte do país com a rede vinculada a Imbituba.
Na prática, isso fez com que o Amapá passasse a utilizar um datum próprio, materializado por observações realizadas em Santana.
Esse fato mostra como a simples pergunta “qual é a altitude deste ponto?” pode esconder uma enorme complexidade científica.
Como obter altitude a partir de uma RN?
Tradicionalmente, utiliza-se o nivelamento geométrico.
Partindo de uma RN conhecida, o profissional determina diferenças de nível e transporta a altitude para novos pontos de interesse.
Esse método continua sendo a técnica mais precisa para determinação de altitudes físicas e é amplamente utilizado em obras de engenharia, barragens, rodovias, canais, ferrovias e projetos de drenagem.
A razão é simples: a água escoa obedecendo ao campo gravitacional da Terra. Portanto, para saber para onde a água corre, é necessário trabalhar com altitudes que possuam significado físico.
É justamente nesse contexto que as RRNN continuam sendo fundamentais.
Onde consultar as RRNN do Brasil?
O principal repositório oficial é o Banco de Dados Geodésicos (BDG) do IBGE.
Nele é possível acessar:
- Referências de Nível;
- Marcos geodésicos;
- Relatórios descritivos;
- Fotografias;
- Croquis;
- Coordenadas;
- Altitudes;
- Informações históricas das estações.
Para quem trabalha com Topografia, Geodésia, Cartografia ou Engenharia, o BDG é uma ferramenta indispensável.
O futuro da altimetria: estamos deixando os marégrafos para trás?
Apesar da enorme importância histórica de Imbituba e Santana, a Geodésia moderna caminha em outra direção.
Hoje sabemos que o nível médio do mar observado em um marégrafo não coincide exatamente com uma superfície global de referência. Correntes oceânicas, temperatura da água, salinidade e diversos fenômenos físicos produzem diferenças que podem chegar a dezenas de centímetros ou até metros entre diferentes regiões do planeta.
Por isso, os sistemas modernos de altitude estão migrando para uma abordagem baseada em geopotencial e em modelos globais do campo da gravidade terrestre.
Projetos internacionais como o SIRGAS e o International Height Reference System (IHRS) buscam criar um sistema vertical único para todo o planeta, permitindo que as altitudes de diferentes países sejam diretamente compatíveis entre si.
Nesse cenário, os marégrafos continuam sendo fundamentais para monitoramento do nível do mar e estudos climáticos, mas deixam de ser a única referência para a definição das altitudes.
Em outras palavras: o futuro da altimetria não está associado a um único porto ou a um único marégrafo, mas a uma infraestrutura global baseada em observações terrestres, GNSS, gravimetria, satélites altimétricos e modelos globais do geopotencial.
Conclusão
Toda vez que encontramos uma RN em campo estamos diante de um pequeno pedaço da história da Geodésia brasileira.
Por trás daquele simples marco existe uma rede construída ao longo de décadas, envolvendo nivelamentos de alta precisão, observações maregráficas, monitoramento geodésico e uma enorme colaboração entre instituições nacionais e internacionais.
Compreender o significado das RRNN é compreender também como o Brasil definiu suas altitudes, como o Datum de Imbituba se tornou uma referência nacional, por que existe um segundo datum em Santana e quais são os desafios para integrar todos esses sistemas a um futuro referencial vertical global.
E embora a tecnologia continue evoluindo, as Referências de Nível permanecem sendo a ligação física entre a superfície terrestre e todo o sistema altimétrico brasileiro.
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