Declividade do Terreno: Conceitos, Cálculo Matemático, Classificações e Aplicações no CAR e Engenharia
A declividade do terreno é uma das variáveis mais importantes na análise espacial, sendo amplamente utilizada em aplicações como:
- Cadastro Ambiental Rural (CAR)
- Georreferenciamento
- Agricultura
- Engenharia rodoviária
- Planejamento urbano
- Estudos ambientais
- Modelagem hidrológica
- Aerolevantamentos com drones
Apesar de ser um conceito aparentemente simples, existem muitos erros de interpretação, especialmente relacionados à diferença entre declividade em porcentagem (%) e em graus (°).
Neste artigo, vamos explorar desde os fundamentos matemáticos da declividade até suas principais classificações nacionais e internacionais, incluindo aplicações práticas com exemplos no QGIS para análises ambientais.
O que é Declividade?
A declividade ou inclinação, em ambiente de um SIG, é uma imagem raster em que os valores dos pixels correspondem ao ângulo que o plano inclinado a uma superfície, passando pelo centro do pixel, faz com o plano horizontal.
Esse ângulo é geralmente representado por
:

Quando expressa em graus, a declividade pode variar entre:
![]()
Onde:
→ superfície completamente plana
→ parede vertical
📐 Declividade em porcentagem
Nas engenharias, uma forma muito comum de representar a declividade é através da porcentagem (%), dada pela razão entre:
- a variação de altitude
- e a distância horizontal
Matematicamente:
(1) ![]()
Onde:
→ diferença de altitude
→ distância horizontal
📊 Interpretação geométrica
Na prática:
- 10% significa:
- 10 metros de desnível
- a cada 100 metros horizontais
⚠️ Declividade em % NÃO é igual a graus
Esse é um dos erros mais comuns em análises ambientais e laudos técnicos.
Exemplos importantes:
| Declividade (%) | Declividade (°) |
|---|---|
| 10% | 5,7° |
| 20% | 11,3° |
| 45% | 24,2° |
| 100% | 45° |
👉 Portanto:
![]()
Na verdade:
![]()
Esse detalhe é extremamente importante em aplicações do CAR e do Código Florestal.
🔄 Conversão entre porcentagem e graus
A conversão é feita por:
(2) ![]()
🧮 Declividade como derivada da superfície
Considerando o relevo como uma função:
![]()
A declividade representa a taxa máxima de variação da altitude sobre a superfície horizontal.
Matematicamente:
(3) 
👉 Ou seja:
- a declividade corresponde ao módulo do gradiente da superfície.
Cálculo da declividade em Modelos Digitais de Elevação (MDE)
Os softwares GIS calculam a declividade a partir de modelos digitais de elevação utilizando algoritmos baseados em vizinhança.
Os métodos mais utilizados são:
- Método da vizinhança
- Método da superfície quadrática
🔹 Método da vizinhança
As derivadas parciais são estimadas pelos oito pixels vizinhos.
Direção x
(4) ![]()
Direção y
(5) ![]()
🔹 Método da superfície quadrática
Direção x
(6) ![]()
Direção y
(7) ![]()
📏 Declividade em graus
Após calcular o gradiente:
(8) 
Classificação da Declividade no Brasil (Embrapa)
A classificação da Embrapa é a mais utilizada no Brasil.
| Classe | Declividade (%) | Declividade (°) | Tipo de relevo |
|---|---|---|---|
| 1 | 0 – 3 | 0° – 1,7° | Plano |
| 2 | 3 – 8 | 1,7° – 4,6° | Suave ondulado |
| 3 | 8 – 20 | 4,6° – 11,3° | Ondulado |
| 4 | 20 – 45 | 11,3° – 24,2° | Forte ondulado |
| 5 | 45 – 75 | 24,2° – 36,9° | Montanhoso |
| 6 | > 75 | > 36,9° | Escarpado |
🌱 Declividade no Cadastro Ambiental Rural (CAR)
No contexto do CAR, a declividade é utilizada em diversas análises ambientais.
Entretanto, existe uma grande confusão sobre o famoso limite de:
![]()
⚖️ O que diz o Código Florestal?
- Áreas de Preservação Permanente (APPs): Encostas ou partes destas com declividade superior a 45° (graus) são consideradas APPs, onde a vegetação nativa deve ser integralmente preservada.
- Áreas de Uso Restrito: Em áreas com inclinação entre 25° e 45°, o Código Florestal (Art. 11) permite o manejo florestal sustentável e atividades agrossilvipastoris, mas veda a conversão para novas áreas de uso alternativo do solo.
⚠️ O erro mais comum
Muitos profissionais confundem:
- 45°
- com 45%
Mas:
![]()
Portanto:
- 45% NÃO caracteriza APP automaticamente.
🌿 Como a declividade é usada no CAR?
Na prática, a declividade auxilia em:
- identificação de áreas suscetíveis à erosão
- avaliação ambiental
- planejamento conservacionista
- validação de uso do solo
- delimitação de áreas restritas
👉 Normalmente utiliza-se a classificação da Embrapa como referência.
🛣️ Declividade em Projetos Rodoviários do DNIT
No contexto do DNIT, a declividade é utilizada principalmente em estudos e projetos geométricos de rodovias, influenciando diretamente:
- o traçado rodoviário;
- a terraplenagem;
- a drenagem;
- a segurança viária;
- a velocidade de projeto;
- os custos de implantação e operação da rodovia.
Diferentemente da classificação geomorfológica da Embrapa, o enfoque do DNIT é predominantemente funcional e operacional, considerando como o relevo afeta o desempenho da infraestrutura rodoviária.
Nos manuais técnicos do DNIT, o relevo normalmente é classificado em categorias como:
- terreno plano < 3%;
- terreno ondulado entre 3% e 5%;
- terreno montanhoso > 5%.
Essas categorias são utilizadas para definir parâmetros geométricos do projeto, como:
- rampas máximas;
- distâncias de visibilidade;
- raios mínimos de curva;
- velocidade diretriz.
Para aprofundamento técnico, recomenda-se a leitura das Normas para o Projeto das Estradas de Rodagem.
🌍 Classificações Internacionais de Declividade
A classificação da declividade do terreno é utilizada mundialmente em áreas como agricultura, conservação do solo, engenharia e análise ambiental. Embora existam diferenças entre os sistemas internacionais, todos seguem uma lógica semelhante, associando o aumento da inclinação do terreno ao aumento das restrições de uso e da suscetibilidade à erosão..
🌐 Classificação da FAO
A FAO utiliza sistemas de classificação de declividade amplamente empregados em estudos de solos, erosão, aptidão agrícola e planejamento territorial.
Uma das classificações mais utilizadas pela FAO é apresentada no sistema SOTER (Soil and Terrain Database), que adota as seguintes classes de declividade:
| Classe | Descrição (original em inglês) | Declividade (%) |
|---|---|---|
| 01 | Flat | 0 – 0,2 |
| 02 | Level | 0,2 – 0,5 |
| 03 | Nearly level | 0,5 – 1,0 |
| 04 | Very gently sloping | 1,0 – 2,0 |
| 05 | Gently sloping | 2 – 5 |
| 06 | Sloping | 5 – 10 |
| 07 | Strongly sloping | 10 – 15 |
| 08 | Moderately steep | 15 – 30 |
| 09 | Steep | 30 – 60 |
| 10 | Very steep | > 60 |
👉 O sistema da FAO apresenta maior nível de detalhamento e é amplamente utilizado em:
- estudos pedológicos;
- modelagem de erosão;
- conservação ambiental;
- planejamento agrícola internacional.
🌐Classificação USDA / NRCS
O USDA Natural Resources Conservation Service utiliza classificações de declividade voltadas principalmente para:
- agricultura;
- mecanização agrícola;
- conservação do solo;
- capacidade de uso da terra.
Diferentemente da FAO e da Embrapa, o sistema USDA/NRCS frequentemente utiliza classes sobrepostas e mais flexíveis, dependendo do tipo de levantamento realizado.
Uma classificação amplamente utilizada pelo USDA/NRCS é apresentada a seguir:
| Simple Slopes | Complex Slopes | Declividade (%) |
|---|---|---|
| Nearly level | Nearly level | 0 – 3 |
| Gently sloping | Undulating | 1 – 8 |
| Strongly sloping | Rolling | 4 – 16 |
| Moderately steep | Hilly | 10 – 30 |
| Steep | Steep | 20 – 60 |
| Very steep | Very steep | > 45 |
👉 O sistema USDA/NRCS é amplamente aplicado em:
- levantamentos de solos;
- planejamento agrícola;
- conservação do solo;
- avaliação de potencial erosivo.
🌎 O Brasil segue um padrão internacional?
👉 Sim.
A classificação da Embrapa segue a tradição internacional adotada por sistemas como FAO e USDA/NRCS, porém adaptada às condições do relevo brasileiro. Embora existam diferenças no número de classes, intervalos e objetivos de aplicação, todos os sistemas relacionam o aumento da declividade ao aumento das restrições de uso, suscetibilidade à erosão e limitações para mecanização e ocupação do solo.
🚁 Aplicações práticas da declividade
🌾 Agricultura
- aptidão agrícola
- mecanização
- terraceamento
- conservação do solo
🌧️ Hidrologia
- modelagem de escoamento
- drenagem
- delimitação de bacias
⛰️ Geotecnia
- risco de deslizamentos
- estabilidade de encostas
🏙️ Planejamento urbano
- restrições à ocupação
- definição de áreas de risco
🚁 Aerolevantamento com drones
- planejamento de voo
- terrain following
- análise de MDE
- qualidade altimétrica
🛰️ Declividade no QGIS
O QGIS permite gerar mapas de declividade a partir de:
- MDEs SRTM
- Copernicus DEM
- LiDAR
- fotogrametria com drones
Os resultados podem ser:
- em graus
- em porcentagem
👉 Em análises ambientais no Brasil:
- normalmente utiliza-se porcentagem (%)
💡 Observação técnica importante
A declividade isoladamente NÃO determina:
- aptidão do terreno
- risco ambiental
- viabilidade de uso
Ela deve ser analisada junto com:
- tipo de solo
- cobertura vegetal
- geologia
- drenagem
- contexto legal
🎯 Conclusão
A declividade é uma das variáveis mais importantes do geoprocessamento moderno, sendo essencial em aplicações ambientais, agrícolas, urbanas e de engenharia.
Compreender:
- sua definição matemática
- formas de cálculo
- diferenças entre graus e porcentagem
- classificações nacionais e internacionais
é fundamental para produzir análises técnicas corretas e juridicamente seguras.
Além disso, dominar o uso da declividade em ferramentas como o QGIS permite gerar produtos mais completos e confiáveis para aplicações como:
- CAR
- georreferenciamento
- planejamento territorial
- engenharia
- aerolevantamentos com drones
🚀 Aprenda Topografia no QGIS
Se você deseja aprender:
- QGIS + QField
- análise de MDE
- processamento de drones
- geração de mapas temáticos
- georreferenciamento
- CAR
- GeoINCRA
- banco de dados
👉 Conheça os cursos e mentorias da GeoOne


