Uso de KML e imagens do Google na Engenharia: onde está o risco técnico?
Tem se tornado comum encontrar, nas redes sociais, ofertas de elaboração de planta e memorial descritivo a partir de KML do Google Earth. Apesar de parecer uma solução rápida, esse tipo de proposta merece muita cautela do ponto de vista técnico.
A discussão proposta neste artigo não é sobre “demonizar” os serviços do Google Earth ou as imagens do Google Satélite. O ponto é outro: uma ferramenta excelente para visualização, reconhecimento e planejamento preliminar não se torna, por isso, uma base técnica adequada para georreferenciamento, agrimensura ou cadastro com exigência normativa.
E, quando alguém vende isso como solução pronta para planta e memorial, o profissional precisa acender o alerta ⚠️.
SOBRE O USO DO KML
O que é KML, de onde veio e qual a diferença para KMZ
O KML nasceu no ecossistema do Google/Keyhole e foi depois padronizado pela OGC. A própria OGC descreve o KML como uma linguagem XML voltada à visualização geográfica, anotação de mapas e imagens e exibição em aplicações como o Google Earth; em outras palavras, ele foi concebido para mostrar informação geográfica, e não para garantir qualidade métrica cadastral.
A especificação e a documentação do Google também vinculam o KML ao uso de coordenadas geográficas em WGS84.
O KMZ é apenas o KML compactado. Normalmente, ele empacota um KML junto com ícones, imagens e outros recursos em um contêiner comprimido.
Por que o KML em WGS84 não deve ser a base de planta e memorial técnico
No Brasil, o IBGE definiu na RPR 01/2005 o SIRGAS2000 como referencial a ser adotado exclusivamente nas atividades cartográficas e geodésicas nacionais, encerrando o período de transição em 25 de fevereiro de 2015. A própria resolução menciona separadamente WGS84 e SIRGAS2000, inclusive orientando a transformação entre eles, o que já mostra que não são a mesma coisa para fins técnicos e documentais.
Assim, o problema não é “o arquivo abrir ou não no software”. O problema é de:
- Metodologia de aquisição dos dados
- referencial geodésico oficial
- rastreabilidade e acurácia posicional
- responsabilidade técnica
Um KML visualizado no Google Earth pode ser útil para navegação e reconhecimento, mas não se configura automaticamente como insumo técnico válido para memorial descritivo, definição de limites ou cadastro normativo.
Como alternativas adequadas, destaca-se o GeoPackage, padrão da OGC, que é um formato aberto, portátil, autodescritivo e altamente interoperável para armazenamento de dados geoespaciais. Trata-se de uma solução moderna que permite consolidar múltiplas camadas, atributos e sistemas de referência em um único arquivo, com maior robustez e organização.
O Shapefile, embora mais antigo e com limitações conhecidas (como restrições de nomes de campos e estrutura fragmentada em múltiplos arquivos), ainda é amplamente utilizado e pode ser tecnicamente aceitável em diversos fluxos de trabalho, desde que o sistema de referência espacial esteja corretamente definido e associado ao conjunto de dados.
Em ambos os casos, é fundamental que os dados estejam estruturados no referencial oficial brasileiro, SIRGAS2000 (EPSG:4674), ou em projeções derivadas adequadas ao tipo de aplicação, garantindo consistência, precisão e conformidade com as normas técnicas vigentes.
SOBRE O USO DE IMAGENS DO GOOGLE
Uso no QGIS via OpenLayers/XYZ ou no próprio Google Earth
O fato de uma camada “Google Satellite” aparecer no QGIS em plugins como QuickMapServices ou HCMGIS, via conexão XYZ Tiles, não altera dois aspectos fundamentais:
- As restrições de uso;
- A inadequação para fins métricos.
As regras do Google Maps Platform proíbem explicitamente:
- extração de dados;
- raspagem de conteúdo;
- digitalização (tracing);
- criação de datasets derivados.
Já os termos do Google Earth proíbem redistribuição, comercialização e criação de produtos derivados, além de alertarem que o conteúdo pode não representar fielmente a realidade.
Na prática:
“Visualizar no QGIS não significa autorização de uso técnico, nem garantia de qualidade cadastral.”
“Não é permitido uso comercial das imagens do Google”: isso é verdade, mas com nuance
As diretrizes do Google indicam que o uso em pesquisa, educação e contextos sem fins lucrativos pode ser permitido, desde que haja a devida atribuição.
Por outro lado, o uso comercial ou promocional tende a ser restrito, especialmente quando envolve reutilização direta ou derivação de conteúdo.
Assim:
- uso acadêmico → geralmente permitido (com atribuição);
- uso comercial → geralmente restrito;
- geração de dados derivados → altamente sensível e, em muitos casos, proibida.
Direto ao Ponto: Posso usar imagem do Google como mapa-base no meu Mapa Temático?
Depende do uso.
Se a imagem for utilizada apenas como plano de fundo, com atribuição correta e dentro das permissões, pode ser aceitável em alguns contextos.
Entretanto, se o mapa temático envolver:
- vetorização;
- digitalização;
- geração de nova base cartográfica;
então já não se trata apenas de um fundo visual, e o uso pode se tornar inadequado tanto do ponto de vista técnico quanto jurídico.
As imagens do Google são confiáveis?
Para visualização e interpretação preliminar, sim.
Para medições técnicas e georreferenciamento, não se deve presumir isso.
O próprio Google informa que:
- as imagens são mosaicos de várias imagens;
- podem possuir diferentes datas;
- podem ter metadados incompletos;
Portanto, uma cena aparentemente contínua pode conter dados de épocas, geometrias e fontes de dados inconsistentes. Mesmo assim, a imagem é excelente para contextualização, embora NÃO deve ser tratada como um ortomosaico homogêneo, auditável e com metadados completos, algo essencial para trabalhos técnicos de agrimensura.
Projeção pseudo-Mercator: por que medir área no Google é má ideia
O sistema EPSG:3857 / Pseudo-Mercator, amplamente utilizado no Google Maps, é voltado à visualização, porém apresenta distorções crescentes de escala e área, especialmente em altas latitudes, quando comparado a sistemas de projeção mais adequados para análises métricas.
Ele:
- não é um sistema geodésico rigoroso;
- utiliza aproximações esféricas;
- introduz distorções de escala;
Por isso, não deve ser utilizado para cálculos técnicos de área ou distância.
O adequado é utilizar:
As imagens do Google NÃO devem ser tratadas como ortofotos métricas
As imagens do Google são, em muitos casos:
- mosaicos de diferentes datas;
- compostas por múltiplas fontes;
- com efeitos de perspectiva e sem reconstrução tridimensional.
Por essa razão, não devem ser consideradas ortofotos métricas.
Na prática, isso pode ser observado por:
- presença de laterais de edificações (inclinação);
- deformações geométricas;
- descontinuidades na imagem;
Esses indícios mostram que não há correção geométrica rigorosa.

Dessa forma, as imagens do Google são adequadas para visualização e análise preliminar, mas não devem ser utilizadas para medições cadastrais ou georreferenciamento.
O maior problema: ausência de garantia de precisão posicional
Mesmo que a imagem “pareça boa”, isso não significa precisão.
O Google não fornece:
- garantia de acurácia cadastral;
- metodologia de produção detalhada;
- controle de qualidade auditável;
Portanto, não há base técnica para utilizá-la na definição legal de limites.
Então devo abandonar as imagens do Google?
Não.
Elas são extremamente úteis para:
- reconhecimento preliminar;
- planejamento de campo;
- análise visual;
- apoio a voo de drone;
O problema surge quando essa utilidade é confundida com validade técnica para georreferenciamento.
CONCLUSÃO
Google Earth e imagens do Google são excelentes ferramentas para visualização e planejamento.
Mas não substituem:
- levantamentos GNSS;
- topografia;
- fotogrametria com controle;
- bases com metadados confiáveis.
E, no final:
“O responsável técnico pelo trabalho é quem assina — não o software, nem o tutorial, nem o atalho.”
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